domingo, 21 de setembro de 2014


21 de setembro de 2014

Eu não quero mais escrever cartas pra você. Mas eu preciso contar pra alguém como eu me sinto, as vezes. E eu não tenho pra quem contar as coisas ruins que eu penso e toda a raiva que eu sinto. Eu queria que ele não me mandasse calar a boca e nem ameaçasse terminar comigo quando eu digo que preciso de algum tipo de droga. Não queria que ele puxasse a cadeira quando eu fosse sentar. Não queria que ele me enganasse e não queria que ele recebesse beijos na boca de alguma amiga que eu tenho certeza que ele ama de alguma forma. Não queria que ele encarasse garotas mais bonitas e mais mulheres do que eu, e não queria que ele mentisse quando eu sei toda a verdade. E queria agredir ele com todos os tipos de palavras feias e todos os tipos de socos e tapas que eu sei dar. E queria que, ainda assim, ele rastejasse por mim, como se eu fosse o oxigênio dele. Queria parar de contar sobre cachorros pro meu psiquiatra e contar que tudo o que eu queria era dormir, por uma semana, dentro de um caixão, só pra ver se dormir no escuro é pior do que ter um aterro no lugar do coração. Eu odeio vocês bastante, e me odeio mais ainda.


Maria.

terça-feira, 22 de abril de 2014

22 de abril de 2014

Querida Tha,

Eu nem sei como começar essa carta. As palavras tem se repetido e tem sido cada vez mais difícil dizê-las. Meu coração se encontra imerso em uma água tão fria que é imperceptível qualquer sinal de vida. Me sinto destruída. Eu não quero mais acordar. Eu gostaria de nunca ter visto aquelas fotos. Eu gostaria de não ter sido a última a saber. Eu espero que a água invada meus pulmões e me impeça de respirar. Porque eu só queria nunca ter começado. Eu não sei aonde Deus se escondeu, porque eu não o encontro em lugar algum. E é desesperador o fato de que talvez ele tenha me esquecido aqui.


Com amor, Maria.  

segunda-feira, 21 de abril de 2014

21 de abril de 2014

Querida Tha,

Talvez as coisas estejam começando a fazer sentido. Há semanas tenho encontrado paz em situações que tenho vivido. E talvez meus sonhos estejam entrando num estado de realização, ainda que pequeno e tão singelo. O amor tem estado presente. Ainda que me atormentem vontades obscuras de destruição e caos. Ainda que a felicidade não pareça suficiente. Só espero que ele não se canse de mim tão facilmente. Espero que ele saiba como eu me sinto. Espero que ele consiga cuidar de mim. Espero que ele entenda e aceite que sou uma bomba relógio. Espero que ele não desapareça quando eu entregar todo o meu amor.


Com amor, Maria.

terça-feira, 25 de março de 2014

25 de março de 2014

Querida Tha,

Meu corpo é um objeto. Meu coração é um aterro. Estou destruída.  


Com amor, Maria.

segunda-feira, 10 de março de 2014

10 de março de 2014

Querida Tha,

Em janeiro completou quatro primaveras. A senhora saudade ainda é mesma. Eu ainda espero o café da manhã na cama todo dia 10. A próxima supernova vai demorar cinquenta anos para chegar. E nada tira o peso do fato de que eu o deixei morrer como meus pulmões.


Com amor, Maria.

terça-feira, 4 de março de 2014

4 de março de 2014

Querida Tha,

O meu pessimismo me enoja. Me sinto usada como uma puta. Tão suja e tão viciada no meu próprio fracasso como o verme que respiro todos os dias. Rogo pragas nos desamores diariamente só pra alimentar o meu luto. E bastam-me cigarros para sobreviver. Dos amores faço o mesmo. Porque não são amores. São homens que me consomem e me abandonam. O que me conforta é que vou enlouquecer sozinha e em paz.


Com amor, Maria. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

16 de fevereiro de 2014

Querida Tha,

Sinto falta de ser um ser humano e de ter emoções reais. Sinto falta de chorar. Me sinto seca. E me sinto exatamente como um leão abandonado dentro de uma jaula. Dopado e controlado. Gostaria de ser corajosa como você é. Gostaria de fumar menos e amar mais. Não é o suficiente. Nada tem sido suficiente, nesses últimos dias. Meus amores me usam, meus dentes doem, o livro é ruim e o café é amargo. E me desespera o fato do meu coração ter congelado. Prefiro enlouquecer, prefiro adoecer, prefiro me jogar na frente do primeiro carro que vier do que sentir o vazio que é não sentir nada. Estou oca. Gostaria de ser um leão livre.

Com amor, Maria.